A sociedade errou?

13 de maio de 2020

Outro dia escutei a esdruxula comparação, ou melhor, a horrível comparação de que no Brasil fecharam mais CNPJs do que morreram pessoas, como se pudesse comparar uma vida humana a um instrumento jurídico que embasa a existência de uma empresa.

O mais assustador é que essa comparação é quase uma defesa de um grupo de pessoas que acreditam que a economia pode ser antagônica à saúde. Parte, normalmente, de indivíduos que possuem uma visão pragmática da economia, utilizando somente análises empíricas de um setor do mercado em que atuam profissionalmente, totalmente restritos ao conhecimento teórico das ciências econômicas.

Defendem que é uma visão aparentemente liberal, pró-mercado, quando em verdade, se percebe que é o reflexo de uma fundamentação ideológica de certa camada social, corroborada por uma visão estratégica de grupos políticos. O grande engano dessa linha de pensamento é que a corrente liberal não pode ser analisada somente sob esse viés.

 Talvez o mais conhecido liberal de todos, Adam Smith, escreveu no século XVIII, que “a riqueza de uma nação se mede pela riqueza do povo e não pela riqueza dos príncipes”. Muito diferente do que se acredita sobre sua teoria, não seria somente o livre mercado o cerne de seu pensamento, mas antes de tudo, analisou o amor próprio, as paixões, a benevolência e a razão[1].

“Adam Smith, o pai da economia, compreendia melhor do que ninguém que a luta em defesa de nossos interesses pessoais necessita ser temperada pelo sentimento de solidariedade”[2]. Por mais egoísta que seja o indivíduo, Smith nunca deixou de analisar os princípios da natureza humana, balizadores da conduta humana em seu meio social, sendo que a “sorte dos outros completa a necessidade de cada um”.

A liberdade dos chamados liberais de direita, tão aclamada nos meios digitais, é confundida com sua própria essência filosófica e econômica. Nessa quarentena, relendo os livros “desenvolvimento como liberdade”[3] e “a ideia de justiça”[4] do professor de economia e filosofia, e ganhador do prêmio Nobel em 1998, Amartya Sen, essas obras trazem em seu objeto teórico a liberdade como algo muito além do livre mercado.

Ressalta a liberdade como a capacidade do ser humano poder desfrutar das condições básicas da vida, como saúde, segurança e salubridade, em um ambiente envolto de oportunidades e perspectivas. A falta de capacidade não está apenas ligada à falta de condição financeira, mas a elementos outros, que consiste em uma rede de segurança social, liberdades políticas e desenvolvimento social.

A falha da retórica populista em afirmar que economia é apenas produção, circulação e consequente emprego para aqueles “pobres diabos”, como Sen denominou a parcela mais carente da sociedade, é inverter a engrenagem do sistema, pois, a saúde é elemento essencial da capacidade humana.

Comparar o fechamento de CNPJs à morte de pessoas é desrespeitar o bem mais precioso do ser humano que é a vida. Desrespeitar aqueles que perderam a vida por uma doença antes não existente. Desrespeitar aqueles que perderam entes queridos por essa terrível tragédia.

Thalles Takada é mestre em Direito, especialista em Direito internacional e econômico, bacharel em Economia, sócio do Escritório Takada e Resstel Advogados Associados, professor e coordenador do MBA em Comércio Exterior – Unifil Londrina.


[1] SMITH, Adam. Teoria dos sentimentos morais. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015.

[2] WAAL, Frans. A Era da Empatia - Lições da natureza para uma sociedade mais gentil. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

[3] SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

[4] IDEM. A ideia de justiça. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

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